sábado, 27 de março de 2010

MOREI NA CRACOLÂNDIA 13 ANOS (PARTE 2)

ESSA É UMA DAS IMAGENS QUE ACHEI NO GOOGLE MAIS PARECIDAS COM QUE NÓS VEMOS A NOITE MAS O NÚMERO DE PESSOAS É UMAS 30 VEZES MAIS DO QUE ISSO OU MAIS...É MUITO TRISTE...É ONDE O SER HUMANO CHEGA NUM PONTO INDESCRITÍVEL...EU SINTO MUITO POR ELES E PELA SITUAÇÃO DO BAIRRO, DA CIDADE MAS SOU SÓ UM RUÍDO, TENTANDO FALAR ENQUANTO O PROBLEMA É GIGANTESCO...

EU FIZ ESTA SEGUNDA POSTAGEM POR SOLICITAÇÃO A 2 JOVENS QUE ESTÃO FAZENDO SOCIOLOGIA, MANDEI POR E-MAIL E COLOQUEI AQUI.

SÃO MUITOS DETALHES E HISTÓRIAS. VOU LEMBRANDO AOS POUCOS MAS TUDO PASSA A SER NORMAL. O SER HUMANO SE ADAPTA AS SITUAÇÕES...

ESPERO TÊ-LAS AJUDADO...BJS.


Quando mudei pra lá, não ía nem na padaria de medo pois vim do bairro Higienópolis pra parar lá. Sempre pensei que era zona proibida da av. São João com a Ipiranga pra o lado da Av. Rio Branco. Tinha horror daquele lugar e de repente me vi morando ali...chorei muito.

Me sentia presa por medo, até que comecei a enfrentar os meus medos pois não achava certo eles ficarem soltos e eu presa. Sou evangélica e os cultos terminam 22h e comecei a horar e enfrentar as ruas nestes horários embora o medo no começo foi constante.

A visão que eu tinha era de filmes "os mortos vivos" pois eram maltrapilhos, sujos e de tanto se drogarem andavam meio tortos e deformados...é impressionante.

Mesmo morando acima do 10º andar escutava perfeitamente tudo que eles falavam e quando pertubavam muito o prédio, o próprio pessoal, moradores, começavam a jogar coisas em cima deles pra eles sairem dali e podermos dormir.

Uma vez liguei pra um 0800 da polícia e perguntei porque não tiravam eles dali e não colocavam carros de policiais em pontos que eram estratégicos e a resposta foi que a retirada deles não era responsabilidade da polícia e usuários; nada podiam fazer, só com traficantes. Então ficavam de mãos atadas e quanto a ficar de plantão, talvez com baixo assinado poderia conseguir. Eles eram responsabilidade da prefeitura.

Existe a pouco tempo um prédio só de guardas metropolitanos da prefeitura em frente a rua que eles ficam e alguns de carro por perto vendo eles se drogarem abertamente a noite toda e nada podem fazer.

Teve vezes que tivemos que dar volta por outra rua porque eles não saiam do meio da rua pra passarmos de carro. São tantas pessoas que fecham as ruas.

Algumas vezes, já vi, mulheres e homens bonitos, bem arrumados entre eles se drogando...dá a impressão que é só moradores de rua mas tem pessoas normais que param ali, se drogam ou passam a noite e vão embora.
Os piores dias, onde enchem mais são de sexta e sábado...chega ser assustador pra mim que vejo sempre, imaginem pra quem nunca viu.

Teve um emprego que tinha que passar no meio deles as 6:30h da manhã e é o auge das drogas pra eles...ía orando e pedindo pra Deus me guardar porque não tinha outra opção e Ele sempre me guardou, o máximo que aconteceu foi uma mulher perguntar se eu queria comprar droga, na gíria e eu respondi que não, obrigada...rs.

Em todos os lugares, convivemos com eles se drogando dia e noite, descaradamente, sem nada poder acontecer pois o que a polícia pode fazer?

De madrugada, tem várias pessoas que passam do metrô pra o trem e na linha da Júlio Prestes, não tem baldiação, é feita pela rua...não tenho conta quantas vezes acordei com alguém gritando polícia, socorro e não aparecia ninguém.
O prédio todo olhava, gritava alguns e não aparecia ninguém.
Teve uma mulher que eu vi, ela estava sozinha e uma nóia, como os chamamos tentando puxar a bolsa dela...eu orei tanto por aquela mulher porque nada poderia fazer por ela e um cara, normal que provavelmente ía trabalhar como ela, pois a nóia pra correr e salvou a mulher de ser roubada.

Já vi uma multidão de nóias cercar um taxista e parar o carro e depois não vi o que fizeram com ele, como vi que alguém parou na frente do carro pra parar e quando o carro parou, entraram pra roubar, de madrugada.
Não sei quantos eram mas uma vizinha estava narrando na janela alto e fui ver mas já tinham saído com o taxista.

Meu filho foi assaltado por uma moeda de R$ 50,00 e ficou apavorado, na feira que tem de domingo e depois disso ficou me pedindo pra mudar.
E, a história que contei do assalto que sofri mas não aconteceu nada.

Quando alguém vinha me pedir, já falava que não tinha e saía bem rápido, o máximo que podia.

Esqueci de mais 2 tentativas de assalto agora, já tinha até esquecido, uma foi quando estava grávida mas um nóia menor me salvou de um adolescente grande que queria minha sacola porque eu sempre dava um real pra ele quando tinha.
Existe nóia que não é agressivo e só fica insistindo em vc dar algum trocado e tem os que ficam de pressionado e assustando pra dar e os piores, violentos e roubam mesmo.

Os que vem pra cima pra assustar, vê como vc age, se mostrar medo dança, se brigar é pior, então tem que levar no papo ou dar alguma moeda.

Depois vc ve tem muito mais coisas mas vou lembrando aos poucos...pode perguntar.
Vc é a segunda aluna que eu ajudo, a primeira foi de arquitetura, que estava fazendo mestrado e me encontrou...como estudo, espero que um dia, encontre alguém como eu pra me ajudar...vou tomar banho e dormir...vc não apareceu...

Os traficantes não gostam que roubam ali na região deles porque dizem que sujam o negócio deles e dão bronca em quem faz isso. Escutei isso da minha janela e foi minha tática pra fugir da última tentativa de assalto.

As pessoas olham pra nós como se fossemos drogados ou prostitutas por morar ali e é horrível este preconceito pois não temos culpa de um problema social que a prefeitura não tem como resolver. Seja onde for que mande eles, no mesmo dia estão de volta.
Pelo que sei o vício é algo tratado como doença e como tratá-los?
Qual deles, quer ou não largar desse vício?
E, verba pra gastar com eles pra tratamento?
É, tudo muito subjetivo, complexo mas uma realidade de todos...uns vivem olhando pra elas de longe e outros mais perto mas no fundo somos todos IMPOTENTES.

2 comentários:

  1. Tem um jeito de resolver. O prefeito ir morar lá com sua família. Tranferir a prefeitura e outros orgãos municipais pra lá. Tenho certeza que seria o fim daquela cracolandia. Porém, por certo surgiriam outras em outros lugares.

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  2. Existem vários projetos e estão mudando tudo por ali mas onde colocar os mortos vivos?
    Eles levam embora e voltam todos de novo. Precisava pensar em algo que pudesse curá-los e reprimir o tráfico embora que eles não gostam que assaltem por ali mas não adianta, essa droga é como uma praga. Precisa de algo mais efetivo...obrigada.

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Se vc já entrou aqui e me deu seu tempo; agradeço. Se deixou uma mensagem; me deixou alegre. Deus o abençoe...bjs.